Escritor japonês revela caso absurdo de editor que não lia seus manuscritos

A discussão sobre os problemas do mercado editorial japonês ganhou um novo capítulo depois que o escritor Minetoshi Yasuda comentou sobre a relação entre autores e editores.
Para ele, trabalhar em um livro com um editor que não acompanha de verdade o manuscrito pode ter um custo-benefício tão ruim que, em determinadas situações, o próprio autor publicar pela Amazon Kindle Direct Publishing pode ser uma alternativa melhor.
A declaração surgiu após uma publicação de Masakatsu Tsujita sobre as dificuldades de ganhar dinheiro exclusivamente com livros. O autor questionou se o futuro não seria menos sobre “viver de livros” e mais sobre usar os livros como núcleo para sustentar outras atividades.
Foi nesse contexto que Yasuda apresentou uma experiência bastante ruim sobre o funcionamento de algumas editoras.
O editor respondia apenas “recebido” aos manuscritos
Minetoshi Yasuda é o autor de uma novel chamada End of Scarlet 8964 Returns, que começou sua publicação física este ano. a história é sobre Shohei, um funcionário comum que sobrevive a um ataque cibernético massivo no Japão. Ao salvar a espiã Ice, que o vigiava em segredo, ele descobre que o terrorista por trás do caos é o homem que assassinou seus pais.

Em resposta à discussão, Minetoshi Yasuda afirmou que existe uma realidade complicada nos bastidores da publicação:
“Fazer um livro com alguém que não seja um editor excelente tem uma relação custo-benefício ruim.”
Yasuda revelou que, em um caso que hoje considera encerrado pelo tempo, enviava seus manuscritos para um editor e recebia praticamente sempre a mesma resposta:
“Recebido”
O problema é que o editor não fazia qualquer comentário sobre o conteúdo do texto.
Nada sobre o capítulo.
Nenhuma observação. Nenhuma sugestão. Nenhuma correção.
Então Yasuda resolveu descobrir se o profissional estava realmente lendo o material.
Ele colocou “あああ” no meio do manuscrito
O escritor conta que, em determinado momento, enviou o capítulo 4 com uma alteração proposital. Em vez de um trecho normal, colocou simplesmente:
“あああ”
Ou seja, algo equivalente a escrever “aaaa” no meio do manuscrito.

A resposta do editor?
“Recebido”
O mesmo “recebido/conferido” de sempre.
O mais impressionante é que Yasuda ainda esperou duas semanas depois disso e não recebeu nenhuma outra mensagem relacionada ao conteúdo do capítulo.
Foi então que ele decidiu confrontar o editor:
“O que exatamente você conferiu?”
O próprio Yasuda explicou posteriormente que o ponto importante era justamente ter esperado duas semanas depois da confirmação de recebimento. Para ele, esse período serviu como uma confirmação de que o conteúdo do manuscrito realmente não havia sido lido.
E o caso aconteceu em uma grande editora!
A história poderia ser encarada apenas como uma experiência isolada, mas Yasuda revelou outro detalhe que tornou o episódio ainda mais surpreendente.
Segundo ele, isso aconteceu em uma editora bastante grande, quando ele já não era mais um escritor iniciante.

Depois de perceber que havia algo muito errado, Yasuda também ouviu relatos de colegas do próprio editor e de escritores externos. E, de acordo com ele, essas conversas revelaram ainda mais problemas relacionados ao profissional.
Mesmo assim, naquele momento havia circunstâncias que impediam uma solução simples. Yasuda explicou que não era possível trocar de editor nem retirar o manuscrito.
Ou seja: ele havia basicamente caído em um “gacha do editor” e não tinha como simplesmente apertar o botão de reiniciar.
Por isso, fez questão de esclarecer que considera o episódio um caso extremamente específico. Ele afirmou que não pretende repetir esse tipo de situação e recomendou que outros autores também não façam o mesmo.
“O editor está abrindo mão do privilégio de ser o primeiro leitor”
A história rapidamente chamou a atenção de outras pessoas do meio editorial. Uma comentarista se mostrou especialmente surpresa com a existência de um editor responsável por um livro que praticamente não lê o manuscrito.
Se o editor não leu a obra, como pode participar adequadamente da decisão de colocá-la à venda? Mas existe também uma dimensão mais curiosa.
O editor tem justamente o privilégio de ser uma das primeiras pessoas a ler uma obra antes do público. Para quem realmente gosta de livros, seria uma das partes mais interessantes da profissão.
No caso relatado por Yasuda, porém, esse privilégio aparentemente virou apenas uma etapa burocrática.
Outro relato fala de mais de 200 erros em uma novel premiada

A discussão ficou ainda mais curiosa quando outro usuário compartilhou uma experiência antiga. Ele contou que uma novel produzida por um colega de uma editora chegou às lojas com mais de 200 erros de digitação.
Ao abrir a novel em uma livraria, ele encontrou imediatamente um erro na página em que abriu.
A impressão foi inevitável:
“Ah, ele não leu o manuscrito.”
Só que havia uma reviravolta.
O livro acabou vencendo naquele mesmo ano o Prêmio Kōdansha de Não Ficção, um dos reconhecimentos importantes da área… então ninguém leu? É isso mesmo? Ninguém está lendo as light novels que estão sendo publicadas e só publicando cegamenta esperando que alguma venda muito?
O caso ainda envolvia o lendário jornalista e escritor Tachibana Takashi, que deixou uma frase contundente em sua avaliação:
“As editoras não devem menosprezar os leitores.”
